A Mineração de Bitcoin Está no Fundo do Poço

A Mineração de Bitcoin Está no Fundo do Poço – E a Culpa Não é Só do Preço

Mineração de Bitcoin passa pelo momento mais difícil dos últimos anos. Receita despencou, máquinas antigas viraram prejuízo puro, e a saída que muitos estão encontrando é abandonar as criptomoedas de vez para alugar a infraestrutura para empresas de inteligência artificial. Parece ficção, mas é o que está acontecendo agora, em tempo real.

Se você acompanha o mercado cripto de longe, provavelmente viu o preço do Bitcoin caindo nas últimas semanas e pensou: “mais um período de baixa, logo passa”. Mas quem está dentro da operação, com os galpões cheios de computadores ligados 24 horas por dia, sabe que dessa vez a coisa é diferente – e bem mais séria.

O que está acontecendo com o preço do Bitcoin?

A Mineração de Bitcoin Está no Fundo do Poço - E a Culpa Não é Só do Preço
A Mineração de Bitcoin Está no Fundo do Poço – E a Culpa Não é Só do Preço

O Bitcoin chegou a bater acima dos R$ 630 mil (algo em torno de 126 mil dólares) lá pelo pico de outubro. Foi um momento de festa pra muita gente. Mas desde então, o mercado virou. A cotação recuou mais de 38% e hoje o Bitcoin ronda os 78 mil dólares – algo em torno de R$ 390 mil na conversão atual.

Pra quem comprou na alta esperando a moeda subir mais, dói. Mas para os mineradores – as pessoas e empresas que dedicam máquinas poderosas para processar as transações da rede Bitcoin e, em troca, recebem novas moedas como recompensa – essa queda é uma catástrofe.

E não é só o preço que está pesando. É tudo junto ao mesmo tempo.

Para começar hoje com segurança: Relatório Smart: 25 Criptomoedas para o Ciclo de Alta Por Adriano Serafim

Por que a situação dos mineradores é tão grave?

Imagine que você montou uma sorveteria no verão esperando vender muito. Mas aí a temperatura cai, o aluguel do ponto sobe, o custo do gelo dobra, e você ainda tem que dividir as vendas com mais concorrentes do que antes. É mais ou menos isso que está acontecendo com quem minera Bitcoin.

Primeiro, o preço do Bitcoin caiu. Isso diminui diretamente o valor da recompensa que os mineradores recebem.

Segundo, a dificuldade da rede aumentou. Isso significa que os computadores precisam trabalhar mais para resolver os cálculos matemáticos que validam as transações. Mais esforço, mesma (ou menor) recompensa.

Terceiro, o custo de energia elétrica segue alto. E energia é o insumo principal de quem minera criptomoedas. No Brasil, você já sabe como é: a conta de luz não perdoa. Para os mineradores industriais ao redor do mundo, está igual.

A combinação desses três fatores jogou a receita dos mineradores em um nível que especialistas chamam de “histórico” – mas não no bom sentido. A plataforma CryptoQuant, uma das maiores referências em análise de dados de blockchain, descreveu os mineradores como “extremamente mal remunerados”. O índice de sustentabilidade de lucro da rede caiu para 21, o menor valor desde o final de 2024.

Os números que assustam

Vamos tentar traduzir esses dados técnicos para a vida real.

Uma das maiores pools de mineração do mundo – a f2pool – revelou que, com o Bitcoin próximo de 76 mil dólares e um custo médio de energia de 0,06 dólares por quilowatt-hora, os mineradores estão ganhando apenas cerca de 34 dólares por petahash por dia. Parece muito? Não é.

Faz alguns meses, esse número era superior a 39 dólares. Parece uma diferença pequena, mas numa operação industrial com centenas ou milhares de máquinas rodando, essa queda representa milhões de reais em receita perdida por mês.

E tem mais: até as máquinas mais modernas e eficientes estão sofrendo. O custo de energia já consome cerca de 52% da receita das melhores máquinas disponíveis no mercado, como os modelos Antminer S21 XP Hydro da fabricante Bitmain. Os aparelhos de geração anterior – que ainda funcionam mas são menos eficientes – operam no limite do equilíbrio entre custo e receita. E os modelos mais antigos? Esses estão gerando prejuízo puro. Cada Bitcoin que eles produzem custa mais do que vale.

A segurança da rede Bitcoin também está em risco

Isso aí já é para quem gosta de entrar um pouco mais fundo no assunto – mas é importante entender.

O Bitcoin funciona com um sistema chamado “prova de trabalho” (proof of work, em inglês). Em termos simples: quanto mais computadores dedicados processando transações, mais segura e resistente a ataques a rede fica. Esse conjunto de poder computacional é chamado de hashrate.

Pois bem: o hashrate total do Bitcoin caiu cerca de 12% desde novembro. É a maior queda desse tipo desde 2021, quando a China baniu a mineração de criptomoedas em seu território e obrigou milhares de mineradores a migrarem para outros países.

Isso quer dizer que a rede Bitcoin está menos segura do que estava há poucos meses. Não que esteja em perigo imediato – longe disso. Mas é um sinal de alerta que os especialistas estão levando a sério.

Jeff Feng, cofundador da Sei Labs (uma empresa do setor de blockchain), comparou o momento atual à maior “capitulação de mineradores” desde 2021. Capitulação é uma palavra bonita do mercado financeiro que significa, na prática: “tanta gente desistindo ao mesmo tempo que afeta o sistema como um todo”.

Quando minerar vira prejuízo, o que fazer?

Se você tinha um galpão cheio de computadores minerando Bitcoin e começou a perceber que os custos de energia superavam o que você estava ganhando, o que você faria? Desligaria tudo e ia embora.

Mas os mineradores profissionais têm outro caminho agora: alugar a mesma infraestrutura para empresas de inteligência artificial.

Parece loucura? Pois é exatamente isso que está acontecendo. E vira e mexe a gente vê algo assim no mercado: uma crise empurra todo mundo para soluções criativas.

A inteligência artificial como tábua de salvação

Pense bem: o que uma empresa de mineração de criptomoedas tem? Galpões enormes. Conexões elétricas de altíssima capacidade. Sistemas de resfriamento potentes. Conexões de internet rápidas e estáveis. E, claro, uma grande quantidade de hardware computacional.

Adivinha o que as empresas de inteligência artificial também precisam? Exatamente a mesma coisa. Os data centers de IA precisam de energia, espaço, resfriamento e infraestrutura robusta para rodar modelos cada vez mais complexos – como os que estão por trás do ChatGPT, do Gemini do Google e de tantos outros.

E a demanda por esse tipo de infraestrutura está explodindo. O caso mais emblemático é o da CoreWeave. A empresa começou como mineradora de criptomoedas, percebeu a oportunidade e migrou completamente para o fornecimento de infraestrutura para IA. Resultado? A Nvidia – sim, a gigante dos chips – investiu 2 bilhões de dólares na empresa. E a CoreWeave chegou a tentar comprar a mineradora Core Scientific, enxergando os galpões de mineração como um imóvel perfeito para instalar servidores de GPU (as placas gráficas usadas para treinar modelos de IA).

Outro exemplo é a Hut 8, uma das maiores mineradoras públicas do mundo. A empresa assinou um contrato de locação de 15 anos para um data center de 245 megawatts voltado para inteligência artificial. O valor estimado desse contrato? Nada menos que 7 bilhões de dólares. Sete bilhões. Para uma empresa que antes vivia de minerar Bitcoin.

Isso não é só uma mudança de negócio. É uma mudança de identidade. E muitos acreditam que outras empresas vão seguir o mesmo caminho.

O que isso significa para o Bitcoin no longo prazo?

Aqui é onde o papo fica mais filosófico – mas também mais importante.

Se as empresas que mantinham a rede Bitcoin segura começam a migrar para outra área, o que acontece com a segurança do sistema?

Por enquanto, o Bitcoin está bem. A rede continua funcionando, as transações continuam sendo processadas. Mas a tendência preocupa quem acompanha o setor de perto.

A questão central é essa: se investir em infraestrutura de IA pagar mais do que minerar Bitcoin, faz sentido econômico continuar minerando? Para muitos operadores, a resposta está começando a ser “não”.

E se esse movimento continuar, a longo prazo, o Bitcoin pode se ver em uma situação delicada: com menos mineradores protegendo a rede, mais vulnerável a ataques e com uma base de segurança menor do que o necessário para suportar o crescimento da moeda.

Não é o fim do Bitcoin. Longe disso. Mas é um aviso de que o modelo atual, que funciona muito bem em períodos de alta, tem fragilidades que aparecem exatamente quando o preço cai.

O que os mineradores brasileiros precisam saber?

O Brasil tem uma comunidade crescente de mineradores – desde pessoas físicas com alguns computadores em casa até operações industriais no interior do país. E a situação global afeta diretamente quem está aqui também.

Com o preço do Bitcoin em queda e o dólar ainda elevado, os custos em reais para manter uma operação de mineração sobem enquanto a receita em BTC perde valor. É uma combinação braba, como diríamos aqui.

Para quem ainda está pensando em entrar na mineração, esse momento pede cautela. Para quem já está dentro, a dica dos analistas é simples: revisar os custos, avaliar se a operação ainda é sustentável e ficar de olho nas oportunidades que o mercado de IA pode oferecer para a mesma infraestrutura.

O futuro da mineração de criptomoedas

A história nos mostra que o mercado cripto já passou por momentos parecidos – e sempre se recuperou. A queda de 2018, o ban da China em 2021, o colapso da FTX em 2022. Em todos esses casos, quem sobreviveu ao período de aperto saiu mais forte do outro lado.

Mas dessa vez tem uma diferença importante: nunca antes os mineradores tiveram uma alternativa tão lucrativa e tão próxima da sua própria infraestrutura. A inteligência artificial mudou o jogo. E alguns hashrates que hoje estão migrando para o setor de IA talvez nunca voltem para o Bitcoin.

Isso não significa que o Bitcoin vai acabar. Mas significa que o ecossistema está mudando – e os players que conseguirem se adaptar vão sair na frente.

Quer acompanhar esse tema de perto? O BlockNexo te mantém atualizado.

Perguntas Frequentes (FAQ)

1. O que é mineração de Bitcoin? Mineração de Bitcoin é o processo pelo qual computadores potentes resolvem cálculos matemáticos complexos para validar transações na rede Bitcoin. Como recompensa por esse trabalho, os responsáveis pelos computadores recebem novas unidades de Bitcoin. É como se fosse uma loteria matemática: quem resolve primeiro o problema ganha a recompensa.

2. Por que a receita dos mineradores caiu tanto? A receita caiu por uma combinação de fatores: o preço do Bitcoin recuou mais de 38% desde o pico de outubro; a dificuldade da rede aumentou, exigindo mais esforço computacional para a mesma recompensa; e os custos de energia elétrica continuam elevados. Esses três fatores juntos criaram uma tempestade perfeita para quem minera.

3. O que é “hashrate” e por que importa? Hashrate é a medida do poder computacional total dedicado à rede Bitcoin. Quanto maior o hashrate, mais segura e resistente a ataques maliciosos a rede fica. A queda de 12% no hashrate desde novembro significa que a rede está operando com um nível de segurança menor do que o de meses atrás.

4. Minerar Bitcoin ainda vale a pena hoje? Depende muito do custo de energia elétrica e do tipo de máquina utilizada. Máquinas modernas e eficientes ainda conseguem operar próximas ao equilíbrio, mas máquinas antigas estão gerando prejuízo. Com a conta de luz no Brasil sendo um dos maiores entraves, a resposta para a maioria dos mineradores individuais no país hoje é: dificilmente compensa.

5. O que é “capitulação de mineradores”? É o termo usado quando muitos mineradores desligam suas máquinas ao mesmo tempo porque a operação deixou de ser lucrativa. Isso reduz o hashrate da rede e pode indicar que o mercado está perto de um fundo – porque os mineradores mais fracos já saíram, deixando apenas os mais eficientes.

6. Como a inteligência artificial se relaciona com a mineração de Bitcoin? As duas atividades usam o mesmo tipo de infraestrutura: galpões com alta capacidade elétrica, sistemas de resfriamento potentes, conexões rápidas de internet e hardware computacional especializado. Com a demanda por infraestrutura de IA em alta, os mineradores estão percebendo que podem alugar ou converter suas instalações para esse mercado com contratos mais lucrativos e previsíveis.

7. O que é a CoreWeave e por que ela é relevante nessa história? A CoreWeave é uma empresa americana que começou como mineradora de criptomoedas e migrou completamente para o fornecimento de infraestrutura para inteligência artificial. Ela recebeu um investimento de 2 bilhões de dólares da Nvidia e chegou a tentar comprar a mineradora Core Scientific. É o exemplo mais emblemático de como uma empresa do setor cripto pode se reinventar no mercado de IA.

8. O Bitcoin está em risco de colapso por causa disso? Não. O Bitcoin continua funcionando normalmente. A preocupação dos especialistas é com a tendência de longo prazo: se cada vez menos mineradores participarem da rede, a segurança pode se enfraquecer progressivamente. Mas o Bitcoin já sobreviveu a crises maiores e tem mecanismos de ajuste automático de dificuldade que ajudam a equilibrar a rede.

9. O que é o “índice de sustentabilidade de lucro” mencionado pela CryptoQuant? É uma métrica criada pela CryptoQuant para medir o quão saudável está a situação financeira dos mineradores de Bitcoin. Quando esse índice cai, significa que os mineradores estão recebendo menos do que precisam para operar de forma lucrativa. O valor atual de 21 é o mais baixo registrado desde o final de 2024, indicando estresse financeiro generalizado no setor.

10. O que aconteceu com a mineração quando a China baniu as criptomoedas em 2021? Em 2021, o governo chinês proibiu a mineração de criptomoedas no país. Como a China concentrava uma grande parte do hashrate global na época, o banimento provocou uma queda abrupta no poder computacional da rede. Muitos mineradores migraram para outros países, como Estados Unidos, Cazaquistão e Brasil. A rede se recuperou em poucos meses. A queda atual no hashrate é a mais acentuada desde aquele episódio.

11. Existe alguma vantagem para os investidores em períodos de capitulação de mineradores? Historicamente sim. Quando os mineradores capitulam em massa e vendem seus Bitcoins para cobrir custos, isso pode criar uma pressão de venda temporária que derruba o preço. Mas após esse processo, os mineradores menos eficientes saem do mercado, os custos da rede ficam mais enxutos e o preço tende a encontrar um suporte. Quem compra nessa fase, assumindo o risco, costuma colher bons resultados no ciclo seguinte – mas atenção: não é uma regra garantida.

12. O que é uma “pool de mineração” como a f2pool? Uma pool de mineração é uma espécie de cooperativa de mineradores. Em vez de cada um tentar resolver os cálculos sozinho – o que seria como comprar um único bilhete de loteria -, os participantes unem seu poder computacional e dividem as recompensas proporcionalmente à contribuição de cada um. A f2pool é uma das maiores do mundo, sediada na China, e é uma fonte importante de dados sobre a rentabilidade do setor.

13. O Brasil tem mineradores de Bitcoin? Sim, e o setor vem crescendo no país. Há desde pequenas operações domésticas até galpões industriais em regiões com energia mais barata, como no interior do Mato Grosso e em algumas cidades do Nordeste. O maior desafio para o minerador brasileiro é o custo da energia elétrica, que no Brasil é relativamente alto em comparação com outros países como Paraguai, Venezuela e algumas regiões dos EUA – destinos preferidos de mineradores que buscam custos menores.

14. É possível que o preço do Bitcoin se recupere e a situação dos mineradores melhore? Sim, e essa é a aposta de quem permanece no setor. Historicamente, cada período de queda do Bitcoin foi seguido por uma recuperação – muitas vezes levando o preço a novos recordes. Se isso acontecer novamente, os mineradores que sobreviveram ao aperto atual serão os primeiros a se beneficiar, com margens de lucro muito mais altas. O desafio é ter fôlego financeiro para aguentar o período difícil sem precisar fechar as operações.

Fonte: CoinMarketCap

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