Quando a política interna derruba gigantes

Quando a política interna derruba gigantes: o caso Macron e o acordo Mercosul

Sabe quando você está passando por um momento difícil em casa e isso acaba atrapalhando seu desempenho no trabalho? Pois é exatamente isso que está acontecendo com Emmanuel Macron, o presidente da França, só que em escala continental.

Na última sexta-feira, a França levou um baile político em Bruxelas – a capital da União Europeia – ao tentar impedir o acordo Mercosul. E olha, não foi por falta de esforço. O problema é que Macron está tão enfraquecido politicamente em casa que ninguém mais leva seus protestos tão a sério quanto antes.

Vamos entender essa história toda, que diz muito sobre como a política funciona nos bastidores europeus e também sobre o que pode estar vindo por aí para o Brasil.

O que é esse tal de acordo Mercosul-UE afinal?

Quando a política interna derruba gigantes o caso Macron e o acordo Mercosul
Quando a política interna derruba gigantes o caso Macron e o acordo Mercosul

Antes de mais nada, vamos ao básico. O acordo Mercosul é uma negociação que já dura uns bons 25 anos entre a União Europeia (aquele bloco que reúne países como Alemanha, França, Espanha e Itália) e os países do Mercosul – que incluem Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.

A ideia é simples: criar uma mega área de livre comércio juntando mais de 700 milhões de pessoas. Isso significa menos impostos para produtos circularem entre os continentes, mais mercado aberto para empresas europeias venderem aqui e para produtos sul-americanos chegarem lá.

Parece bom, né? Mas como toda história tem dois lados, vamos aos problemas.

Adquira estratégias valiosas: Os 8 Padrões Mais Assertivos do Mercado Por Felipe Trader

Por que a França está tão nervosa com isso?

Imagina você sendo dono de uma fazenda na França. Você produz carne, soja, talvez milho. Aí de repente vem um acordo que vai permitir que produtos brasileiros – muitas vezes mais baratos porque nossa mão de obra custa menos e temos terras abundantes – invadam o mercado europeu.

É exatamente isso que deixa os fazendeiros franceses de cabelo em pé.

E não é paranoia não. O agronegócio brasileiro é gigante. A gente produz em escala, tem tecnologia de ponta e consegue preços competitivos. Para um pequeno agricultor francês, que já lida com custos altíssimos e regras ambientais super rígidas, a concorrência com produtos vindos da América Latina soa como uma sentença de morte.

Nos últimos meses, agricultores franceses saíram às ruas protestando. Tratores bloqueando estradas, manifestações em Paris, aquela pressão toda. E Macron, já fragilizado politicamente, sentiu o baque.

A crise política que mudou tudo

Aqui é onde a coisa fica interessante.

Em junho de 2024, Macron tomou uma decisão que muita gente considera a maior loucura política da carreira dele: dissolveu a Assembleia Nacional francesa. Basicamente, ele jogou tudo para o ar e convocou novas eleições.

O resultado? Um desastre completo.

A França mergulhou num caos político que continua até hoje. O país está rachado, os partidos não conseguem formar maioria, e Macron virou meio que um pato manco – sabe aquele presidente que tecnicamente ainda manda, mas que na prática ninguém mais leva tão a sério?

Pois é. E em Bruxelas, todo mundo percebeu.

Como funciona o jogo político em Bruxelas

Para entender o que aconteceu na sexta-feira, você precisa saber como as coisas funcionam na União Europeia.

Existe uma regra: se você quiser bloquear um acordo comercial, precisa reunir pelo menos quatro países que, somados, representem 35% da população da UE. Parece complicado, mas na prática significa que países grandes como França, Alemanha ou Itália têm peso decisivo nessas votações.

A França tentou montar esse grupo de bloqueio. Mas não conseguiu.

A Itália, que seria a peça-chave para dar à França os votos necessários, simplesmente… apoiou o acordo. E não foi só isso. Os italianos ainda conseguiram arrancar concessões importantes para seus próprios agricultores no processo.

Foi tipo assistir seu melhor amigo te deixar na mão e ainda sair ganhando com isso.

A ascensão de Ursula von der Leyen

Enquanto Macron afunda, tem alguém subindo: Ursula von der Leyen, a presidente da Comissão Europeia (tipo a “primeira-ministra” da União Europeia, se a gente simplificar bastante).

Von der Leyen está no segundo mandato dela e claramente decidiu que não vai mais tratar a França com aquelas luvas de pelica de sempre.

Antigamente, havia um ditado famoso em Bruxelas: “La France… C’est la France!” (A França… é a França!). Isso significava que os franceses sempre conseguiam o que queriam, sempre tinham um tratamento especial. Era quase como um filho mimado que sempre leva o brinquedo para casa.

Mas esses dias acabaram.

Von der Leyen aproveitou a fraqueza de Macron de um jeito quase cirúrgico. Logo depois daquela confusão toda das eleições francesas, ela praticamente empurrou para fora Thierry Breton, um comissário europeu francês super poderoso que tocava áreas importantes como regulação digital, defesa e espaço.

Breton era conhecido por ser durão, defender os interesses franceses com unhas e dentes e não ter medo de bater de frente com a própria von der Leyen. Ele foi o cara por trás de leis importantes que regulam big techs na Europa.

No lugar dele? Veio Stéphane Séjourné, um aliado próximo de Macron, mas que em Bruxelas é visto como bem menos influente. Deram para ele uma pasta menor, focada em estratégia industrial. Foi uma troca desigual, para dizer o mínimo.

O que os outros países pensam sobre isso tudo

Tem um detalhe curioso: diplomatas de outros países da União Europeia já começaram a fazer piada sobre a situação francesa.

Com a França mergulhada em dívidas gigantescas e tentando desesperadamente cortar gastos públicos, alguns embaixadores europeus brincam dizendo que a França virou “o país mais econômico do bloco”. É uma ironia pesada, porque historicamente a França sempre foi conhecida por adorar gastar dinheiro público em políticas sociais e investimentos estatais.

Ver a França nessa posição – brigando para equilibrar as contas enquanto perde influência política – é quase surrealista para quem acompanha política europeia há décadas.

Mas Macron ainda tem algumas cartas na manga

Não vamos enterrar o presidente francês tão rápido.

Apesar de tudo, Macron ainda consegue influenciar debates importantes. Principalmente quando o assunto é política externa.

Um exemplo? Ele foi o primeiro líder europeu a levantar a possibilidade de enviar tropas nacionais para ajudar a Ucrânia na guerra contra a Rússia. No começo, todo mundo achou loucura. “Macron pirou de vez”, diziam.

Mas aí Donald Trump voltou à Casa Branca nos Estados Unidos e começou a mudar completamente a política americana em relação à Rússia. De repente, aquela ideia “maluca” do Macron não parecia mais tão maluca assim.

O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, embarcou na proposta. Agora os dois lideram juntos uma “Coalizão dos Dispostos” para criar garantias de segurança para a Ucrânia. Esta semana mesmo, Macron e Starmer assinaram com o presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy uma declaração de intenções para estabelecer uma força multinacional caso haja cessar-fogo.

Macron também continua empurrando a ideia de “Made In Europe” – basicamente, dar preferência para produtos fabricados na Europa em compras governamentais, como uma forma de proteger a indústria local da concorrência chinesa e americana. E essa ideia está pegando entre outros líderes europeus.

Então não é que ele perdeu totalmente o jogo. Mas no caso do acordo Mercosul, a derrota foi clara e dolorosa.

O que a Alemanha ganha com tudo isso

Enquanto a França perde espaço, a Alemanha ganha. Simples assim.

Os alemães foram grandes apoiadores do acordo Mercosul desde o início, junto com a Espanha. E não é difícil entender por quê: a Alemanha é uma potência exportadora. Eles fabricam carros, máquinas, equipamentos de todos os tipos, e adoram a ideia de ter acesso facilitado ao mercado sul-americano.

Para os alemães, depender só dos Estados Unidos (que está ficando cada vez mais protecionista) e da China (que é cada vez mais rival) é arriscado demais. Diversificar as parcerias comerciais faz todo sentido estratégico.

E com a França enfraquecida, a Alemanha encontrou espaço para liderar essa agenda comercial na União Europeia de um jeito que talvez não conseguisse há alguns anos.

E o Brasil nisso tudo?

Para nós brasileiros, essa confusão toda na Europa tem consequências diretas.

O acordo Mercosul finalmente vai sair do papel. A cerimônia de assinatura já está marcada para 17 de janeiro em Assunção, no Paraguai. Depois de 25 anos de enrolação, a coisa está acontecendo de verdade.

Isso pode significar portas abertas para nossos produtos no mercado europeu – desde carne bovina até soja, passando por frutas e outros itens do agronegócio. Mas também significa que produtos europeus vão chegar aqui com mais facilidade e preços menores, o que pode afetar algumas indústrias brasileiras.

É aquela história: vai ter ganhador e perdedor dos dois lados do Atlântico.

Os agricultores europeus estão preocupados com a concorrência brasileira. Os industriais brasileiros estão preocupados com a concorrência europeia. E os governos estão tentando navegar nesse mar de interesses conflitantes.

As concessões de última hora

Uma coisa interessante: para tentar acalmar os ânimos dos agricultores europeus, a Comissão Europeia ofereceu uma série de concessões.

Por exemplo, liberou acesso antecipado a 45 bilhões de euros da Política Agrícola Comum – basicamente, um fundo que subsidia fazendeiros europeus. Também congelou retroativamente um imposto de carbono que ia taxar fertilizantes importados.

A Itália conseguiu garantir tudo isso para seus agricultores. A França tentou conseguir as mesmas coisas, mas no fim das contas acabou sendo deixada de lado. Os italianos jogaram o jogo político melhor, simples assim.

E isso mostra outra coisa: mesmo dentro da própria União Europeia, cada país está olhando para o próprio umbigo. A solidariedade europeia tem limites quando o assunto é dinheiro e interesses econômicos.

O contexto global que ninguém pode ignorar

Tem um pano de fundo maior nessa história toda.

O mundo está mudando rápido. Os Estados Unidos, tradicionalmente o maior parceiro comercial da Europa, estão cada vez mais voltados para dentro, especialmente com Trump de volta ao poder. A China continua sendo uma potência econômica gigante, mas também uma rival estratégica que preocupa os europeus.

Nesse cenário, a América Latina surge como uma alternativa interessante. São mercados grandes, em crescimento, e que podem ajudar a Europa a diversificar suas parcerias sem ficar tão dependente de Washington ou Pequim.

Para o Brasil e os outros países do Mercosul, é uma oportunidade de ouro. Mas também vem com desafios: será que estamos preparados para competir de igual para igual com produtos europeus de alta qualidade? Nossas indústrias vão aguentar a pressão?

Lições sobre poder e política

O caso do acordo Mercosul e a derrota de Macron ensinam algumas coisas sobre como funciona o poder na política internacional.

Primeira lição: força política em casa se traduz em influência lá fora. Quando você está fraco no seu próprio país, com parlamento contra você e popularidade em baixa, seus parceiros internacionais percebem. E vão usar isso a favor deles.

Segunda lição: alianças mudam. A Itália poderia ter ajudado a França a bloquear o acordo. Mas preferiu garantir vantagens para si mesma e apoiar o deal. Na política internacional, amigos de hoje podem ser adversários amanhã se os interesses mudarem.

Terceira lição: o timing é tudo. Macron tem boas ideias – sobre defesa europeia, sobre política industrial, sobre muitas coisas. Mas ele está apresentando essas ideias num momento em que está politicamente enfraquecido. E na política, uma boa ideia no momento errado vale menos que uma ideia mediana no momento certo.

O que vem pela frente

Agora que o acordo Mercosul está praticamente fechado (ainda precisa ser ratificado pelos parlamentos de todos os países envolvidos, o que pode demorar anos, mas o sinal político foi dado), começa uma nova fase.

Para a França, é hora de engolir o sapo e tentar se reerguer politicamente. Macron ainda tem mais de um ano de mandato pela frente, e pode usar esse tempo para tentar recuperar alguma influência. Mas não vai ser fácil.

Para von der Leyen e a Comissão Europeia, é uma vitória importante que mostra que Bruxelas pode sim tocar sua agenda comercial mesmo contra a vontade de um país grande como a França.

Para o Brasil e o Mercosul, é hora de se preparar para um novo capítulo nas relações com a Europa. Vem oportunidade por aí, mas também vem desafio.

Uma reflexão final

O que essa história toda nos mostra é que a política internacional é muito mais humana e menos técnica do que a gente imagina.

Não é só sobre acordos comerciais, balanças de pagamento e percentuais de tarifas. É sobre líderes que tomam decisões arriscadas (como Macron ao dissolver o parlamento), sobre apostas que dão errado, sobre rivais que aproveitam momentos de fraqueza.

É sobre o fato de que mesmo países poderosos como a França podem perder espaço rapidamente quando as coisas desandam em casa. E é sobre como o equilíbrio de poder global está sempre mudando, sempre se reorganizando.

Para nós brasileiros, acompanhar essas movimentações é importante não só por curiosidade, mas porque elas afetam diretamente nossa economia, nossos empregos, nosso futuro. O acordo Mercosul vai mudar muita coisa por aqui nos próximos anos – para melhor e para pior, dependendo de qual setor você está.

E tudo isso começou, em parte, porque um presidente francês fez uma aposta política arriscada em junho de 2024 e perdeu. Às vezes, é assim que a história muda: por decisões individuais que têm consequências muito além do que qualquer um poderia imaginar.

A cerimônia de assinatura em Assunção, marcada para 17 de janeiro, vai marcar simbolicamente o fim de uma era em que a França mandava e desmandava em Bruxelas, e o começo de outra em que o jogo é mais equilibrado e imprevisível.

Macron pode até recuperar parte de sua influência nos próximos meses. Mas essa derrota no caso do acordo Mercosul vai ficar marcada como o momento em que ficou claro: a França não é mais tão especial assim nos corredores de Bruxelas. E essa mudança vai ter consequências para todo mundo – inclusive para nós, aqui do outro lado do Atlântico.

No BlockNexo, os temas quentes ganham análises claras e atuais.

Perguntas Frequentes

1. O que é o acordo Mercosul-UE?

É um tratado de livre comércio entre a União Europeia e os países do Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai). Depois de 25 anos de negociações, o acordo cria uma zona comercial com mais de 700 milhões de pessoas, reduzindo impostos e barreiras para produtos circularem entre os continentes.

2. Por que a França é contra o acordo?

Os agricultores franceses temem a concorrência desleal com produtos sul-americanos, especialmente carne e grãos brasileiros. Eles alegam que produzimos com custos menores e menos exigências ambientais, o que tornaria impossível competir. Com Macron já enfraquecido politicamente, ele não quis enfrentar mais essa pressão dos fazendeiros.

3. O acordo já está valendo?

Ainda não. A cerimônia de assinatura está marcada para 17 de janeiro de 2025 em Assunção, no Paraguai. Depois disso, o texto precisa ser ratificado pelos parlamentos de todos os países envolvidos, o que pode levar anos. Mas o sinal político foi dado: o acordo vai acontecer.

4. Como o Brasil se beneficia com isso?

Nossos produtos do agronegócio – carne bovina, frango, soja, frutas – terão acesso facilitado ao mercado europeu com menos impostos. Isso pode aumentar as exportações e gerar mais empregos no campo. Também abre portas para outros setores brasileiros venderem na Europa.

5. E quais os riscos para o Brasil?

Produtos europeus de alta tecnologia, carros, máquinas e outros manufaturados vão chegar aqui mais baratos. Isso pode prejudicar nossa indústria nacional, que já enfrenta dificuldades para competir. Alguns setores podem perder empregos se não conseguirem se adaptar.

6. Por que Macron está politicamente enfraquecido?

Em junho de 2024, ele dissolveu a Assembleia Nacional francesa (equivalente à nossa Câmara dos Deputados) e convocou novas eleições. O tiro saiu pela culatra: nenhum partido conseguiu maioria, o país ficou dividido e Macron perdeu muito poder político. Agora ele governa como um “pato manco”.

7. O que é a União Europeia exatamente?

É um bloco de 27 países europeus que funciona quase como uma federação. Eles compartilham moeda (o euro, na maioria dos países), têm leis comuns em várias áreas e tomam decisões conjuntas sobre comércio, política externa e economia. É como se fosse um super-país, mas cada nação ainda mantém sua independência.

8. Quem é Ursula von der Leyen?

Ela é a presidente da Comissão Europeia, o “governo” da União Europeia. É ela quem propõe leis, negocia acordos comerciais e toca o dia a dia do bloco. Está no segundo mandato e ganhou força enquanto Macron enfraqueceu.

9. Por que a Itália apoiou o acordo?

Porque jogou o jogo político melhor que a França. Os italianos conseguiram arrancar concessões importantes para seus agricultores – como acesso a 45 bilhões de euros em subsídios e isenção de impostos sobre fertilizantes – e ainda apoiaram o acordo. Lucraram dos dois lados.

10. O que é essa história de “Made in Europe”?

É uma proposta defendida por Macron de dar preferência a produtos fabricados na Europa em compras governamentais. A ideia é proteger a indústria europeia da concorrência chinesa e americana. Funciona como nosso “compre brasileiro” em algumas licitações.

11. A Alemanha é a favor do acordo. Por quê?

Os alemães são mestres em exportação – carros, máquinas, equipamentos de todos os tipos. Eles querem acesso ao mercado sul-americano e sabem que depender só dos EUA e da China é arriscado. Diversificar parceiros comerciais faz todo sentido para eles.

12. E a Espanha, por que apoia?

A Espanha tem laços históricos e culturais fortes com a América Latina. Muitas empresas espanholas já atuam aqui – bancos, telefonia, energia. Para eles, facilitar o comércio com o Mercosul é uma oportunidade de ouro de expandir negócios em mercados que já conhecem bem.

13. Os agricultores europeus vão realmente quebrar?

Provavelmente não. A União Europeia tem um sistema gigante de subsídios agrícolas (a Política Agrícola Comum) que ajuda os fazendeiros. Mas a concorrência vai aumentar, sim, e alguns setores vão sofrer. É uma preocupação legítima, embora o cenário catastrófico que pintam seja exagerado.

14. Quando o acordo vai realmente começar a funcionar na prática?

Ninguém sabe ao certo. Depois da assinatura em janeiro, cada país precisa aprovar nos seus parlamentos. Alguns vão demorar mais, outros menos. Pode levar de 2 a 5 anos até estar tudo funcionando plenamente. E mesmo assim, a redução de tarifas costuma ser gradual, não acontece da noite pro dia.

Fonte: Euronews

Posts Similares

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *